Informação (im)parcial

Este texto é sobre um artigo acadêmico, escrito por Carrol Bogert, vice-diretora executiva da mundialmente conhecida ONG “Human Rights Watch”.
Carrol enfatiza as atuais dificuldades que enfrentam os correspondentes internacionais. A cobertura internacional geralmente é mais cara e, diante de um cenário que combina mudanças tecnológicas radicais e recessão econômica, acaba por ter seu orçamento bastante prejudicado. Tais mudanças têm impactos significativos para as ONGs que atuam em esfera internacional, já que os correspondentes sempre representaram, para estas instituições, um meio valioso de espalhar informações. Deste modo, o intuito do ensaio é examinar as ameaças e oportunidades que este cenário proporciona para as ONGs.
Nem todas as ONGs internacionais lidam regularmente com jornalistas e correspondentes. Pelo contrário, é mais comum que seus membros desenvolvam suas atividades dentro do limite das fronteiras nacionais e, caso de a mídia local proporcione alguma liberdade, costuma-se manter aí seu foco. Nas palavras da autora do ensaio, as ONGs têm um relacionamento “complexo e ambivalente” com os jornalistas. Seu trabalho difere substancialmente daquele desenvolvido pela mídia em geral. As ONGs costumam demorar mais para publicar suas descobertas. Além disso, há um receio de que a rapidez das notícias acabe por deixar de lado fatores importantes relacionados à sua área de atuação. Simultaneamente, estão sempre buscando a atenção da grande mídia para seus trabalhos.
Como pontua a autora, a pressão da má publicidade acaba por forçar os governos dos países onde ocorrem abusos a agir. A cobertura extensa funciona como um aval para a pressão pública sob o governo, e acaba por ser efetiva mesmo quando a grande maioria se cala. Bogert nos dá como exemplo a situação de Kosovo no final dos anos 1990, quando um grande debate público dentro e fora da mídia acabou por apressar a OTAN a agir. Adicionalmente, a mídia também pode funcionar como uma espécie de “selo de aprovação” para grupos internacionais de defesa. Quando um membro de uma dessas instituições passa a colaborar com a mídia, ganha maior credibilidade entre o público geral.
De modo semelhante, a mídia também é beneficiada pelos grupos internacionais de defesa. Em muitos países onde a liberdade de expressão é restrita, os jornalistas locais deixam a cargo destes grupos divulgar aquilo que não podem, já que correspondentes internacionais não sofrem as mesmas sanções quando reportam assuntos polêmicos, como é o caso de o abuso de Direitos Humanos. Ademais, a internet permite que o público tenha acesso a notícias internacionais sem filtros governamentais. No entanto, a internet representa “um perigo e uma bênção” (nas palavras da autora) para as ONGs.
A internet se caracteriza pelo excesso: blogs, facebook, twitter e inúmeras outras formas de comunicação dificultam a escolha da mídia apropriada aos fins de uma ONG. Quando se trata de atingir os atores políticos, tal escolha se torna ainda mais complexa. Por outro lado, a internet também possibilita que as ONGs atinjam sua audiência diretamente, já que representa uma facilidade e rapidez de gerar e distribuir conteúdo sem precedentes.
A questão ressaltada pela autora diz respeito à habilidade das ONGs de ocupar o vácuo deixado pela mídia comercial em relação aos assuntos internacionais. Para que possam fazer isso de modo satisfatório, é necessário rever o propósito das informações que tais instituições coletam, adquirindo meios mais eficientes de alcançar a atenção do público. Apesar da facilidade que a internet trouxe, a os ONGs ainda precisam vencer alguns obstáculos: o conhecimento produzido pela sua pesquisa ainda tem uma linguagem restrita e muitas ainda se utilizam somente de material escrito. Outro empecilho que afeta a fluidez do diálogo entre as ONGs e o público direto é a dificuldade de selecionar meios de distribuição adequados para as informações. O conteúdo que se torna “viral” na internet representa apenas uma pequena parcela do que é divulgado e, diante de tantas opções, torna-se difícil selecionar aquela com maior capacidade de alcance. Deste modo, a questão da distribuição acaba voltando-se, novamente à grande mídia.
Com a escassez de recursos para a cobertura internacional, a resposta óbvia seria que editores e produtores aproveitassem o material das ONGs. No entanto, as organizações jornalísticas e os grupos internacionais de defesa diferem fundamentalmente quanto ao propósito pelo qual buscam informação. Enquanto o jornalismo conserva como essencial a busca por uma informação livre de subjetividade e parcialidade, as ONGs declaradamente defendem uma posição em relação à um assunto específico. À primeira vista, tal afirmação poderia supor que o conteúdo gerado pelas mesma seria menos digno de confiança. Entretanto, a reputação destas instituições dependem grandemente de sua capacidade objetiva de reportar fatos e coletar informações.
Para que as ONGs possam produzir conteúdo mais abrangente, devem seguir alguns princípios fundamentais pontuados por Bogert: transparência, competência e reputação em seu campo de pesquisa e clareza a respeito de seus objetivos. As mudanças econômicas e tecnológicas estão, de alguma forma, diminuindo a distância entre os grupos de defesa internacional e a mídia em geral, e esta tendência não deve ser, de modo algum, ignorada por aqueles que se preocupam em influenciar o público.

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